terça-feira, 17 de novembro de 2015

149, FÁTIMA 2015



E UM POEMA

Viemos de muito longe e muitos lugares
Viemos de muitas aldeias e cidades
Viemos do mesmo país e idades
plenos de juventude e forças ímpares
feitas coragem, aventura e ingenuidades.

Fomos levados e reunidos em quarteis
Fomos treinados e educados para fins
militares, de matar e ser Cains,
no teatro de guerra a representar papeis
imorais e ser herói ao som dos clarins.

Fomos enviados-levados ao centro das guerras
Fomos envolvidos nas frentes mais duras
dela e, de coragens ingénuas e almas puras,
conquistámos matas picadas morros serras
ao inimigo oculto receoso de nossas bravuras

Voltámos vencedores de nossa dura batalha
Trouxemos na bagagem íntima dos corpos
cinco nódoas de sangue, cinco pesos mortos,
cinco pesos de gente que balas de metralha
fizeram tombar e enterrámos nos inconfortos

interiores da cova na terra que os comeu e em nós
deixou destroços de dor e falas sem voz
com lágrimas de balas quando gente canalha
diz dos dignos e nobres combatentes, agora avós,
que somos pestilentos; que somos "peste grizalha"


terça-feira, 18 de agosto de 2015

ESQ. CAV. 149 ANGOLA 1961-1963 COMFRATERNIZAÇÃO 2015

Camaradas de armas na Guerra Colonial, completaram-se no mês de Junho 54 anos do nosso embarque em Lisboa rumo a Luanda com destino ao Norte de Angola e centro da Guerra que naquela terra deflagrara a 15 do mês de Março anterior.
Fomos combatentes na "Operação Viriato" para a tomada de Nambuangongo, na altura, a prioridade central dada ao Comando da Região Militar de Angola. Cumprimos com distinção e rasgado louvor dado ao Esquadrão e várias condecorações dadas a Soldados por actos heróicos. Pagámos a preço de sangue com cinco tombados mortos, dez baixas graves evacuadas e cinquenta feridos ligeiros em combate nas matas e picadas angolanas. Pagámos o nosso tributo à Pátria com vidas, perigos, fomes, sedes, males, doenças e sofrimentos terríveis à chuva, ao sol, às intempéries; cada vez mais todos nos sentimos heróis irmãos pelo sangue, sofrimentos e lágrimas que todos deixaram tombar como Soldados do 149.
Muitos dos salvos e regressados também, pela lei do tempo e natureza humana, já deixaram o nosso convívio e no recente dia 09Ago2015 deixou-nos de vez o nosso Condutor Militar e Grande Comandante Cap. Rui Abrantes principal estratega herói do Esquadrão e da "Operação Viriato".
Somos os que restam para Memória viva do nosso inigualável Esq. Cav. 149 aos quais cumpre o dever de  lembrar os mortos reunindo em sua homenagem. 


domingo, 9 de agosto de 2015

CAPITÃO CAVALARIA RUI COELHO ABRANTES


1925 - 2015

Cap. Cav. Rui Abrantes na formatura geral do Esq. Cav. 149 em honra do içar da bandeira portuguesa após a tomada de Zala em 07Ago61 


O naior Comandante e melhor estratega militar na grande operação de tomada de Nambuangongo em Angola, "Operação Viriato", tombou finalmente em paz atingido pela acção implacável da Natureza Humana.
Íntegro cumpridor da disciplina militar era, sobretudo, um observador nato das condições naturais, morais e psicológicas dos seus Soldados e do inimigo para traçar o quadro de tomada de decisão adequado a cada acção para a progressão e avanço no terreno em direcão ao objectivo final.
Foi um excepcional Condutor Militar de Soldados dos quais, pela sua conduta de militar vertical e sem medo, obteve total confiança de todos e todos lhe obedeciam de vontade própria sem quaisquer reservas ou receios. E também, simultâneamente, considerando as condições duras da guerra para os seus  humanamente sacrificados camponeses Soldados, foi mui liberal e condescendente na aplicação de regras de caserna completamente inadequadas naquela guerra. 
Para o Cap. Abrantes, traçado um objectivo militar, não havia impedimentos ou dificuldades insuperáveis: havia a avaliação militar do inimigo; a elaboração da estratégia adequada ao caso; a necessidade de meios e apoios suficientes; a preparação moral e psicológica dos Soldados; fazer arrancar as Tropas para a frente de combate totalmente confiantes de que nada lhes acontecerá ou poderá deter. 
Filho de militar, nascido no Castelo de S. Jorge em Lisboa, coração da Pátria, foi sempre um impoluto cumpridor do estatuto de Código de Honra Militar de que não abdicou mesmo quando instado superiormente a subvertê-lo. Assim, sendo Comandante das Tropas em Macau no periodo da "Revolução Cultural" maoista chinesa, desobedeu ao Governador que lhe exigia uma acção parlamentar e o Major Rui Abrantes, na sua condição de Comandante militar, exigia, e só actuaria, sob uma acção militar.
Num infeliz processo disciplinar, por desobediência grave, foi expulso do Exército e só após o 25Abril, e reaberto o processo, lhe foi feita justiça e readmitido, de novo, como Militar e voltou a ter orgulho de ostentar na lapela, como herói, a Medalha de Cruz de Guerra de 2ª Classe.

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Quem nos ensinou a guerra na Calçada da Ajuda?
Quem nos quis vestir à Índio das botas ao gorro?
Quem nos marcou de lenço preto à Zorro?
Quem foi para "Viriato" como quem lhe sai a taluda?
Quem aliviou o medo dos Soldados com a "caixa preta"?
Quem nunca deu sinal de resquicio de temor?
Quem teve sempre confiança na sua Tropa e valor?
Quem nunca se deixou ser refém ou marioneta?
Quem no cambate aparecia sempre no meio dele?
Quem no meio do cambate tanto sorri como berra?
Quem tinha ideia mais clara como conduzir a guerra?
Quem nunca pediu reforços ao Com. e nunca a ele apele?
Quem perante o tipo de inimigo, mudou de táctica?
Quem ousou avançar noite e dia sem aquartelamento?
Quem pôs o inimigo sempre a recuar e sem tempo?
Quem pôs o Esq. a rolar quase de forma automática?
Quem foi duro quando não podia ser mole?
Quem foi mole quando não precisava ser duro?
Quem nunca viu no inimigo um intransponível muro?
Quem nunca deixou que o inimigo se lhe cole?
Quem partiu dias depois e chegou horas atrás?
Quem chegou horas atás e fez o caminho mais longo?
Quem desobstruiu Quipedro, Zala e Nambuangongo?
Quem fez do Esquadrão Unidade triunfante e eficaz?
Quem nunca consentiu viaturas blindadas com sucatas?
Quem ousou improvisar pontes e jangadas de paus e latas?
Quem atravessou o Dange de jangada e nada se afundasse?
Quem foi honrado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe?
Quem conseguiu para o Esquadrão um rasgado louvor?
Quem foi de "Viriato" o Soldado mais arrojado e maior?
Quem foi demasiado ambicioso com a posteridade?
Quem em 19 de Março de 62 nos deixou em orfandade?
Quem em dez meses fez do Esquadrão herói?
Quem foi, quem foi?

Poema "Quem foi, quem foi?" do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves.
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domingo, 12 de julho de 2015

149, PRÓXIMO ENCONTRO CONFRATERNIZAÇÃO DE 2015

" José António Cardona, informa que o Esquadrão de Cavalaria 149, ( memoria149.blogspot.com ), vai realizar o evento do convívio dos 54ª anos do anivesário da mobilização/embarque para Angola. O Esquadrão, proveniente do Regimento de Cavalaria 7 - Lisboa, esteve na campanha em Angola entre 1961 a 1963, onde entrou em muitas acções em especial, na reocupação de Nambuangongo, missão "Viriato",  "A Grande Arrancada Nambuangongo". A confraternização irá realizar-se no restaurante "D.NUNO" em Boleiros - Fatima em 10 de Outubro de 2015, Contacto 967075753. "

Na altura devida, irão receber pelo correio, o convite para a confraternização.

terça-feira, 23 de junho de 2015

CONFRATERNIZAÇÃO DO ESQUADRÃO 149 NA COVILHÃ, 1997 (Discurso do Cor. Ruben)

Nesta confraternização não puderam estar junto a nós os dois Comandantes do Esquadrão, respectivamente o Cor. Nosso Cap. Rui Abrantes nem o Cor. Nosso Cap. Faria Fernandes e também o Nosso Ten. Médico Dr. João Alves Pimenta.
Respeitando a hierarquia, segundo a regra militar, tomou a palavra o Cor. Nosso Alferes, Ruben Domingues, Comandante Adjunto, para nos dirigir umas palavras de recordação acerca do que foi o Esquadrão 149, sua primeira Unidade e pia baptismal de guerra; falou sentidamente emocionado pela experiência vivida no centro da guerra entre nós que considerou única como escola de virtudes militares e formação de camaradagem e amizades indestrutíveis sob fogo e constante perigo de vida.


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Dos Oficiais de um só galão
havia o Comandante imediato
que era militar de carreira.
Era o adjunto do Capitão,
não tão austero no trato
e capaz de uma brincadeira
com os jovens Soldados
que eram da sua juventude.
A sua principal virtude
face a perigo de dar brados
era uma enorme bravura
feita daquela mistura
de coragem e foiteza
que lhe deu a natureza.
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Do poema "Os Intérpretes" do livro "Esquadrão 149, A guerra e os Dias" de Jose Neves.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

ESQUADRÃO 149 - 25 ANOS DEPOIS (Discurso do Dr. J.A.Pimenta)


O Esq. Cav. 149, mobilizado em Maio de 1961 e constituído sob o pendão do Reg. Cav. 7 e Comando do Cap. Cav. Rui Coelho Abrantes, foi enviado em Missão de Serviço para Angola ainda no mesmo ano.
Embarcou em Lisboa, no paquete Vera Cruz, a 27Jun61 e aportou em Luanda em 07Julh61. Constituída como Unidade de Reforço tinha o estatuto de Unidade independente e um efectivo de 172 militares.
Como Unidade de reforço às ordens do Comando de Sector 3 (Fazenda Tentativa) participou em dezenas de Operações de tomada de território ocupado pelo inimigo das quias se destaca a Operação Viriato, na qual foi uma das três colunas militares intervenientes na Tomada de Nambuangongo, quartel general do inimigo.
Após uma comissão de serviço de 27 meses sempre na ZIN, Zona Intervenção Norte regressou a Lisboa em Outubro de 1963.
25 anos depois, a quase totalidade de combatentes do Esquadrão, reuniu-se para confraternizar em Lanceiros 2, Unidade herdeira do Reg. Cav. 7 entretanto extinta, em 15.10.88 para comemorar os 25 anos da chegada a Lisboa e reencontro com pais e mães, esposas e filhos, amigos e namoradas todos envolvidos em alegria de abraços e lágrimas.
O presente filme, ainda filmado e realizado muito artesanalmente, mostra como foi esse encontro e, especialmente o, espiritual e moralmente revigorante, discurso do nosso Médico de Missão, Dr. João Alves Pimenta.



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Foi a 30 de Setembro de 1963
que a tropa do império portugês
embarcou em Luanda, contente
de deizar a guerra para trás
sãos e salvos, com vontade e capaz
de lutar à civil no Continente.
No barco havia festa no ambiente
havia conversas e sorrisos
havia sonhos em soltura
havia planos de vida futura
havia recomendações e avisos
havia trocas de moradas
havia abraços fortes leais
havia irmãos mães e pais
havia mulheres e namoradas
havia lágrimas e beijos no cais
havia perdas trágicas e fatídicas
havia lembranças e idéias
havia dois anos de odisseias
havia o regresso às suas Ítacas.
Havia na consciência imprimida
"dever cumprido" e força de vida.

A 10 de Outubro de 1963
toda a tropa sobe ao convés
tentar ver entre a neblina
barra margens e o Rio,
colinas torres e o casario
da branca luminosa pombalina.
O coração fez-se fole de concertina
a branca desfez-se em côres
do cais nasceram silhuetas
destas brilhavam olhos em setas
voando de amores para amores.
Trocaram-se beijos abraços choros
trocaram-se farpelas, fez-se a muda,
ex-Soldados aos grupos aos coros
cantavam "vivas à peluda".  
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Do poema "A Peluda" do livro "Esquadrão 149, A Guerra E Os Dias" de Jose Neves

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Se o Capitão foi o grande estratega da arte militar,
o Tenente é quem cuida, trata, sossega
e mantém a unidade familiar
com suas qualidades e exemplo ímpar
de homem bom e íntegro:
fazendo de médico militar competente
fazendo de médico civil sendo Tenente
fazendo de parteira nas sanzalas do perímetro
fazendo a cada Soldaddo de seu chefe de família
fazendo de Capelão sem missa nem homília
fazendo de médico dedicado das popuçações pretas
fazendo de médico de almas as quais trata
fazendo de psiquiatra
fazendo de cirurgião com garrotes e lancetas
fazendo frente à morte com um sorriso
fazendo frente às emboscadas e armadilhas
fazendo de médico, enfermeiro e pastilhas
fazendo de feiticeiro se fosse preciso.
Fazendo-se homem respeitado e de bem
foi, para todos, a nossa mãe.
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Do Poema "Os Intérpretes"do livro "O Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de Jose Neves