quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OPERAÇÃO NAMBUANGONGO - EFEITOS II



CAP. CAVª. RUI COELHO ABRANTES, COMANDANTE ESQ. 149

Outra das três forças militares empenhadas na operação "Viriato" convergentes na tomada e ocupação de Nambuangongo foi o Bat. Caç. 96 comandado pelo bravo Ten. Cor. Maçanita. Esta força com nível militar de Batalhão reforçado com engenharia, artilharia e morteiros, como todas as Unidades utilizadas nessa operação, teve a seu cargo o itinerário Este-Oeste progredindo pelo eixo Piri-Rio Luica-Mucondo-Muxaluando-Nambuangongo.
Também esta Unidade teve fortes ataques do inimigo nomeadamente na travessia do Rio Luica embora sem a dimensão do ataque sofrido pelo outro Bat.114 em Anapasso. Foram, contudo, fortes e duros o suficiente para provocar baixas e sobretudo marcas no moral e estado de confiança de parte do corpo de Comando que perdeu alguma unidade e coesão na acção. Não o seu Comandante, Cor. Maçanita, que era um Oficial corajoso e destemido mas em alguns dos seus oficiais que se tornaram mais cautelosos e menos confiantes quanto ao modo e rapidez de progressão.
As consequências tiveram expressão no recurso a pedidos ao Comando Sector 3 de maior apoio logístico nomeadamente ao nível de abastecimento de combustível, mantimentos e munições. O relato do Cor. Carlos Campos e Oliveira, substituto de Maçanita no Comando do Bat.96 e outros relatos, explicam, no livro "A Guerra de África 1961-1974" de José Freire Antunes, como o defeituoso reabastecimento era feito pelo "Quartel-General".  A progressão fazia-se ao nível de Comp.ª que estabelecia o novo acampamento ao fim do dia com luz natural, o que tornava o avanço moroso e pior que isso, permitia o reagrupamento do inimigo e seu planeamento de novos ataques e emboscadas com feridos o que, por sua vez, retardava mais o avanço e aumentava o estado de baixo moral na Tropa.
A todas as faltas e mal-estar interno tentava remedear e colmatar o intrépido Comandante Maçanita sem, contudo, pela defesa intransigente da sua Tropa no campo de batalha, acabar por desenvolver ele próprio necessariamente algum mal-estar com o Comando de Sector 3 e também com o Quartel-General. E, estando o Bat. 96 em Muxaluando a poucos Kms e prestes a fazer o assalto final sobre Nambuangongo, o caldo de relações entre O Comandante do Bat. e o Comando de Sector 3 na Tentativa e Comando Geral em Luanda, confrontaram-se como se de inimigos se tratasse. O caso não era para menos.
O Cor. Maçanita, após longa marcha, feridos e mortos tombados sobre as picadas e deixados enterrados nos acampamentos, no momento do assalto final para atingir e tomar o objectivo principal, recebe ordens ao mais alto nível para parar e esperar que os Pára-Quedistas de Luanda fossem lançados sobre Nambuangongo e deste modo ficar com os louros da vitória: uma original operação montada para acalmar e sossegar a impaciência de inactividade dos Páras em Luanda,  retirar ao Maçanita e oferecer os louros aos Páras e que, sobretudo, permitiria fazer uma acção de propaganda para consumo internacional tanto mais que nesse lançamento estava incluído o jornalista Artur Agostinho preparado para o "relato", de ênfase à desportiva, do acontecimento. A operação de propaganda teria sido tomada para aliviar a pressão internacional que, naquela altura, na ONU votava inteira contra Portugal e era crucial para a argumentação da diplomacia portuguesa a afirmação do domínio e soberania da totalidade do território angolano.
Segundo relatos constantes do referido livro atrás citado o Alferes Jardim Gonçalves diz que Maçanita respondeu, "Vou entrar em território inimigo e vou com fogo" e mandou fechar todos os rádios proibindo qualquer telegrafista de os abrir. O citado Cor. Campos e Oliveira diz,"O Maçanita respondeu que faria fogo sobre os pára-quedistas quando eles estivessem a cair como pássaros". Manuel Catarino no "Correio da Manhã" diz que Maçanita respondeu, "Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou tomá-los como inimigos, porque não sei se são portugueses", e desligou o rádio para não receber mais mensagens.
Deste modo o Bat. 93, com o Ten. Cor. Maçanita à frente da Comp.ª 103 entrou triunfante em Nambuangongo às 17.45H do dia 09Agosto1961. Para Maçanita nenhuma respeitabilidade militar lhe podia retirar os louros da victória que o sangue dos seus Soldados e a sua bravura conquistara.
O nosso Comandante Cap. Rui Abrantes do Esq. Cav.ª 149, na entrevista dada e reproduzida aqui parte referente ao Bat. 96, foi conhecedor priviligiado dos acontecimentos e refere-se a eles de forma historicamente inofensiva dada a sua condição de militar protagonista, também construtor dos mesmos factos, mas colocado quase em oposição quer do ponto de vista da estratégia militar quer do pensamento e acção no terreno.  
Quando O Cap. Abrantes se refere a Maçanita como militar destemido e teso, quando refere que no Esq. 149 nunca foi exigido mais apoio logístico com reabastecimentos e alimentos, quando se refere que uma ordem sua no 149 era rigorosamente cumprida e no 96 não era bem assim, quando se refere ao não lançamento dos Páras em Nambuangongo e depois ao lançamento, dias depois, dos mesmos Páras em Quipedro, para bom entendedor o Cap. Abrantes está-se a referir a todos acontecimentos passados tal como são fielmente descritos acima.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

OPERAÇÃO NAMBUANGONGO - EFEITOS I



CAP. CAVª RUI ABRANTES ACERCA DO BAT.114
Como é já da História Militar acerca da Guerra em Angola, a operação militar de maior envergadura realizada no norte de Angola foi a operação denominada "Viriato" montada para a reocupação de Nambuangongo, considerada pelo inimigo a sua Praça-Forte, Quartel-General e Capital política dos territórios ocupados. Nessa operação tomaram parte três importantes colunas militares seguindo percursos mais ou menos formando vectores de força de 120º entre si e convergido em Nambuangongo.
Do vector sul-norte seguindo por Caxito-Anapasso-Quicabo-Beira Baixa-Onzo-Nambuangongo ficou encarregado o Bat.114 comandado pelo militar conceituado Cor. Oliveira Rodrigues. O vector Este-Oeste seguindo pelo Piri-Rio Luica-Mucondo-Nambuangongo ficou encarregado o Bat.96 comandado pelo destemido Cor. Maçanita. E o vector Oeste-Este, arrancando tardiamente dez dias em relação aos dois Batalhões referidos,  seguindo por Ambriz-Quimbumbe-Zala-Nambuangongo ficou encarregado o Esq. Cav. 149 reforçado com quatro Pelotões de Armas específicas, comandado pelo racional e sagaz Cap. Rui Abrantes.  

O Bat.114, logo aos primeiros 15 kms de avanço foi atacado em massa em Anapasso junto da ponte sobre o Rio Lifune. Com as suas Mausers e várias armas automáticas fez frente a uma mole de homens armados de catanas, canhangulos e algumas armas automáticas, vencendo a batalha sem contudo evitar a morte de alguns homens seus.
Desde esse momento pareceu ter ficado atemorizado e praticamente ficou paralizado, sem iniciativa. O Comando do Bat., em vez de explorar o sucesso da vitória e a raiva dos vivos perante os camaradas mortos e arrancar em frente a todo vapor, mediu mal a situação sobrestimando a força do inimigo e fez alto, remetendo-se depois a solicitar reforços para poder avançar de novo.
É certo que o percurso entregue ao Bat.114 era o mais bem guardado e defendido pelo inimigo dado ser o caminho mais curto e directo em relação a Luanda. Também, talvez por isso mesmo, tal percurso tenha sido entregue ao Comando do Militar considerado melhor preparado.
Aconteceu que o Comando do Bat.114 e o Comando do Sector 3 responsável máximo pela operação, instalado na Fazenda Tentativa e comandado pelo Brigadeiro Peixoto da Silva, não chegaram a entender-se cabalmente, um quanto aos reforços disponíveis e outro quanto ao avançar sem os reforços pedidos. E sobretudo, nem o Comando Chefe nem o Comando de Bat. viram na batalha de Anapasso uma vitória importante e determinante para ou, enviar com rapidez os reforços ou dar ordens claras de avanço explorando a desorganização do inimigo atingido fortemente.
Deste modo, o Bat.114 acabou por instalar-se e acomodar-se em Quicabo e as suas Tropas ocuparam a Fazenda Beira Baixa e o Onzo não tendo atingido o objectivo principal, Nambuangongo.
  

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

CUMPRIU-SE MAIS UMA CONFRATERNIZAÇÃO

Tal como definido há um ano em V. N de Gaia a promessa de nova confraternização em Pombal no dia 12 de Outubro de 2013, foi cumprida.
Embora o peso de cinquenta e quatro anos passados sobre o nosso embarque para Angola, que nos tirou alguma energia de juventude, mantem-se em nós aquele estado de camaradagem e prontidão que o Corpo de Comando do Esq. 149  nos incutiu em tempo de guerra.
À hora marcada para o encontro lá estavam quase todos os combatentes sobreviventes em condições de saúde prontos para a arrancada da confraternização amiga.   

E também, trocados os fortes abraços e recordações de episódios trágicos-cómicos uns e cómico-trágicos outros passados em comum, não foi esquecida a memória dos que tombaram em combate pagando com sangue a sobrevivencia de camaradas e dando um elevado contributo para a identidade ímpar do nosso Esquadrão 149.


O Cardona, a alma e a força incansável da organização dos nossos encontros anuais, não se esqueceu de nada como de costume. E também nos recordou o desaparecimento, já este ano, dos dois homens que compunham a equipa da RTP que nos acompanhou desde o Ambriz até Nambuangongo e que comeram connosco diariamente noite e dia a ração de combate, o pó da picada e o risco de vida ou morte permanente.
Já não haverá mais a sua habitual feliz companhia junto de nós, contudo deixaram a sua indelével presença, em nós e no Esquadrão 149, imortalizada no filme "A Grande Arrancada" que narra a nossa epopeia vivida entre Ambriz e Nambuangongo. 




Foi curto o tempo para tanto episódio que havia para recordar entre os próprios intervenientes. Tanto mais que há sempre um dado novo ou pormenor esquecido de uma história passada sob perigo que, nestes encontros de troca de recordações em grupo, saltam à memória como badaladas de sino.
Mas para o ano haverá nova oportunidade de trocarmos abraços de nossa amizade e histórias de nossa guerra. 
Será em Viseu daqui a um ano.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

ARRANCADA ZALA-NAMBUANGONGO




TRAVESSIA DO UEMBIA

Em Zala, ainda a 07Ago61, ao anoitecer, depois de inventariadas as munições, alimentação, estado físico e moral das tropas, o comportamento do inimigo e tácticas utilizadas, o Comando decidido a avançar imediatamente sobre Nambuangongo ordenou às tropas fisicamente aptas que se aprontassem, montassem as viaturas e se colocassem em estado de prontidão e arranque.
Face a tal medida do Comando houveram reacções de oficiais subalternos, nomeadamente do Comando do Pelotão motorizado com Panhards dos Dragões de Luanda, Alferes Barão da Cunha.  O problema mais grave era a falta de munições sendo consideradas insuficientes as que haviam para fazer o percurso Zala-Nambuangongo de 44 Kms, sentido pela maioria como o mais perigoso pensando que o inimigo iria concentrar força e recursos para defender o seu bastião-forte.
Com o pessoal montado e alinhado para arranque onde chegavam notícias contraditórias ora de partir ora de ficar, os Oficiais em Reunião Geral discutiam a situação e possíveis consequências quer de ficar quer de arrancar em condições precárias de segurança militar.

TRAVESSIA DO UEMBIA

O Comandante Cap. Rui Abrantes, embora fortemente contrariado, deu-se por vencido perante a argumentação do risco que representava a falta de munições suficientes, aceitando que no dia seguinte se fizesse uma pista de aviação de modo a evacuar feridos e doentes e houvesse reabastecimento de munições e víveres frescos por via aérea. Aos Sargentos e Soldados chegaram, após a Reunião Geral dos Oficiais e ordem de desmontar e dormir a noite em Zala, rumores de troca azeda de argumentos incluindo a evocação do poder absoluto do Comandante em situação de Estado de Guerra.

TRAVESSIA DO UEMBIA

Assim, na manhã do dia 08Ago61, com enxadas, pás, latas e botas capinou-se uma área suficiente para aterrar os pequenos aviões DO-27, o Dornier. Este trouxe cunhetes de munições, correio e víveres frescos e evacuou feridos e doentes em várias viagens entre Zala e Luanda.
E, ironia trágico-cómica da nossa guerra, constatou-se que a maior parte dos cunhetes de munições trazidas eram de balas de madeira usadas na instrução militar. Em cima da hora prevista para arrancar foram precisas novas viagens do Dornier para trazer balas a sério. Já não houve tempo para examinar os novos cunhetes chegados de Luanda e logo distribuidos pelas viaturas destinadas à frente da coluna que arrancou às 18,00 horas desse dia 8.

RECEPÇÃO DO PESSOAL DO BAT.96 À NOSSA CHEGADA

Sendo o meu Pelotão escalado para a frente da coluna, eu próprio quando batia a picada fazendo reconhecimento pelo fogo, ao segundo cunhete aberto deparei-me novamente com balas de madeira. Comunicado o assunto ao Comandante de Pelotão recebi um cunhete de balas verdadeiras e ordem de parar com o fogo de reconhecimento e fazer reconhecimento pela observação atenta da mata e bermas da picada: devia esquecer o caso, não falar mais no assunto, progredir com rapidez e poupar as balas de matar. O Cap. Comandante não queria discutir mais o assunto e atrazar a marcha sobre Nambuangongo.
Posto o Esquadrão em marcha não havia mais condições de voltar atrás ou acampar, isso seria um sinal de fraquesa que contrariava totalmente a visão táctica militar do Comandante. Pelo contrário, face a tal facto que faria voltar de novo a discussão à estaca zero, o Comandante colocou o pelotão de Panhards blindadas na frente da coluna e ordenou a máxima rapidez na progressão.

O ENCONTRO DOS COMANDANTES COR. MAÇANITA E CAP. RUI ABRANTES

Como grande estratega militar, o nosso Comandante, já percebera que o inimigo reunira todo o seu esforço de defesa sobre Zala e que, naquele momento, estava batido e convencido da impossibilidade de deter as nossas Tropas tanto mais que sabia que o Bat. 96 do Cor. Maçanita também já havia rompido a defesa do inimigo e estava às portas de Nambuangongo. Também fora por estar convencido da justeza da sua visão sobre a situação militar do inimigo que quizera arrancar imediatamente de Zala no dia anterior e discutira acesamente com os outros Oficiais. Agora, uma vez o Esquadrão em marcha só pensava em atingir Nambuangongo o mais rápido possível e surpreender o inimigo e não ser surpreendido, como era estratégia estabelecida para actuação do Esquadrão.

O ABRAÇO DOS COMANDANTES DO BAT. 96 E ESQ. 149

O caso foi que o inimigo só deu sinal de vida logo a seguir ao arranque de Zala com uns tiros de muito longe sem consequências e depois limitou-se a acompanhar e observar de longe a nossa progressão sem parar directa a Nambuangongo. O obstáculo maior foi a travessia do Rio Uembia a 6 kms do objectivo final dado a ponte ter sido destruida e ser preciso reabrir uma antiga passagem a vau ao lado da ponte abatida. Levámos quase a noite toda do dia 9 para 10 a fazer a travessia do Rio Uembia e no dia 10Ago61 às 9,00 horas atingimos Nambuangongo onde as Tropas do Bat. 96 do Cor. Maçanita haviam chegado às 17,00 do dia anterior e nos receberam com saudações de grande entusiasmo e alegria.


UM SOLDADO DO BAT. 96 FEZ TOCAR O SINO À NOSSA CHEGADA E AO HASTEAR DA BANDEIRA

HASTEAR DA BANDEIRA PORTUGUESA NA CAPELA DE NAMBUANGONGO

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Viriato, chefe guerreiro lusitano
do ataque bate e foge, do engano,
do sempre em movimento,
do vem de milhas e vai pra milhas,
das emboscadas e armadilhas,
do sem casa nem acampamento
certo, sem noite, dia ou hora,
tal qual o nosso Esquadrão labora.
Na nossa guerra o guerrilheiro
era o preto mas a nossa táctica
adoptada supunha uma prática
de atacar de surpresa e primeiro,
usando ensinamentos e cartilhas
de Viriato que era preto entre virilhas.

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Excerto do poema "Viriato" do livro "Esquadrão 149, a Guerra e os Dias" de José Neves

domingo, 11 de agosto de 2013

CONFRATERNIZAÇÃO 2013 (2)


 P O M B A L
 
EM 12 DE OUTUBRO DE 2013
 
P R O G R A M A

12 DE OUTUBRO 2013 

10:30 H - CONCENTRAÇÃO NO LARGO DO CADAVAL - JUNTO À C.M. DE POMBAL

12:00 H - MISSA NA IGREJA "Nª.SENHORA DO CARDAL" - JUNTO À C.M. DE POMBAL

13:00 H - ALMOÇO NO RESTAURANTE "MANJAR DO MARQUÊS" - VER MAPA DE LOCALIZAÇÃO JUNTO

Contactos:
Cardona        :Telef. 212422047
                      Telm.967075752/926411513

Restaurante  :Telef. 236200960
                      Telm. 917292830


domingo, 28 de julho de 2013

ELVAS, FORTE DA GRAÇA OU DA 'BARRILADA'

O Sargento LAÇO foi comandante de Secção do 3º Pelotão do Esq. Cav. 149 entre 1961 e 1963 em Angola.
Fez parte dos heróis do Esquadrão que abriram as portas da guerra. Na Madrugada de 25Jul1961 o 3º Pelotão é enviado de Ambriz para explorar o caminho do nosso itinerário para Zala-Nambuangongo afim de conhecer as dificuldades de progressão e sobretudo testar a presença e capacidade de reacção do inimigo.
Ao fim de 53 kms percorridos, na área de Cavunga, os homens do 3º Pelotão são surpreendidos por um forte ataque do inimigo escondidos na mata da berma da picada armados de canhangulos.
Em Cavunga, a cerca de 150 kms o inimigo montara a sua primeira defesa de Zala e Nambuangongo instalando ali uma guarda avançada aquartelada de centenas de homens. 
O 3º Pelotão comandado pelo Alferes Ribeiro de Carvalho, o mais jovem dos Alferes e até da maioria dos seus Soldados, embora inexperiente e vendo-se de repente com 5 homens feridos, não se ficou ou amedrontou reagindo com fogo cerrado das Mauser sobre o inimigo. Obrigou-o a debandar pelos carreiros da mata e abandonar o quartel onde foi encontrada vária documentação com informação militar importante.
Na 1ª batalha travada na guerra a sério onde há quem morra e quem mate, quem tombe e quem escape, um dos intérpretes combatentes sem medo foi o Sargento LAÇO.
No dia 3Jul2013 fui visitá-lo a Elvas, sua terra natal onde apresentou praça e depois esteve muito anos em serviço nos quarteis da Cidade. Não há muito, o tempo quase lhe fez o que a guerra não conseguiu mas, temperado pela força de (L)aço rijo que foi o 149 e a guerra, resistiu e voltou a ter qualidade de vida.
Eu que em jovem ouvira falar do Quartel da "barrilada" em Elvas, falei-lhe acerca disso e que gostava de conhecer esse lugar mítico, que já perguntara como se ia lá mas houve até quem respondesse que o caminho não estava capaz ou já nem havia. O Laço levantou-se da cadeira e disse-me: queres lá ir agora?
E assim foi e fomos. O pequeno vídeo apresentado abaixo é o resultado dessa visita ao Forte da Graça ou da "Barrilada" como ainda é conhecido devido ao seu mito de Sisífo associado à sua condição de prisão militar.     
   


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Progrediram pelo terreno do inimigo até Cavunga.
53 quilómetros percorridos, sob um perigo que ocupa
a cabeça dos Soldados e todos os seus sentidos,
na tentativa de descobrir os homens escondidos
da UPA,
organização de prática tribalista que comunga
expulsar Portugal de Angola, nos combate,e era
sabido que estariam, emboscados, à nossa espera.
E em Cavunga dá-se o inevitável e receado contacto,
de Viriato.
Um frente-a-frente de facto
onde há quem morra e quem mate,
quem tombe e quem escape.
Felizmente, nesta batalha, passados os últimos
estampidos,
quando o fumo e o cheiro da pólvora ainda nos invade
contámos, entre os nossos, apenas cinco feridos,
sem gravidade.
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Extrato do poema  "O 1º Passo" do livro " Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de José Neves.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

SERRAS FERNANDES, NEVES DA COSTA VIVOS EM NOSSA MEMÓRIA SEMPRE

SERRAS FERNANDES, operador de imagem da equipa da RTP integrada no Esq.149 durante a arrancada para Nambuangongo em Angola, 1961.
Imagem de 13.10.2001 obtida na reunião do Esq.149 comemorativa dos 40 anos.


NEVES DA COSTA, jornalista chefe da equipa da RTP integrada no Esq.149 durante a arrancada para Nambuangongo em Angola, 1961.
Imagem de 13.10.2001 obtida na reunião do Esq.149 comemorativa dos 40 anos.

Soubemos no princípio deste ano do falecimento do SERRAS FERNANDES. Agora, inesperadamente, soubemos da má notícia do desaparecimento entre nós do NEVES DA COSTA.
Formaram a equipa da RTP integrada na coluna militar do Esq.149 dirigida a Nambuangongo. Entre o Ambriz e Nambuangongo foram nossos camaradas de guerra e que, tal como nós, correram perigo de morte e comeram a ração de combate e o pó da picada. Foram também heróis do Esq.149.

Admiradores da estratégia e qualidades de comando e militares dos Soldados da nossa Unidade tornaram-se nossos grandes amigos e nunca faltavam às nossas confraternizações anuais.
A eles deve o Esq.149 o Filme "Nambuangongo, A Grande Arrancada", que trata precisamente da história gravada ao vivo dos combates e progressão do Esq.149 desde o Ambriz até Nambuangongo.

Para Eles a certeza de que nós, os seus camaradas de guerra sobreviventes, não deixaremos de os manter vivos em nossas memórias.

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e recebemos em reforço, um Pelotão de Dragões
montados em Panhards, e para nos acompanhar
trouxe uma equipa de dois repórteres da RTP
armados de muita fita e câmaras de filmar
e medos e receios que ninguém vê.
(Iriam comer o pó connosco, em várias ocasiões)
Desde então, foram horas e horas de registo ao vivo
de tiros, feridos, mortos, medos, coragens
e feitos, feitas imagens
que são testemunhos em arquivo
à espera de poeira e serenidade.
Registos que fizeram do Esquadrão a estrela e o tema
do filme da nossa posteridade
gravado em celuloide de cinema.

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Do livro "Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de José Neves.

sábado, 29 de junho de 2013

CONFRATERNIZAÇÃO 2013



Como era de nossa marca um militar do 149 só não ia ao combate se o Dr. Pimenta o desse como incapaz de saúde.
Do mesmo modo, também agora, apesar dos anos nos terem fragilizado a antiga força e vontade, só não deve ir á nossa confraternização habitual de cada ano quem estiver mesmo impossibilitado de todo. Porque, a nossa reunião e convívio anual para recordar tempos inesquecíveis da nossa juventude em tempos de vida ou morte, são o mais eficaz medicamento contra as nossas maleitas. 
E porque somos cada vez menos a confraternizar são cada vez mais os que lá do alto nos observam e esperam pelo nosso dever de os recordar e homenagear. 

ASSIM, CARO AMIGO CAMARADA DO E.CAV149.

AGENDA JÁ ESTA DATA : Sábado, 12 de Outubro de 2013

Convívio 2013 do Esquadrão de Cavalaria 149 (Os morcegos)

Restaurante - "O MANJAR DO MARQUÊS"

Situado em Pombal

Em Setembro, o nosso inigualável organizador camarada Cardona enviará o convite individual e croqui de localização pelo correio.

O COGNOME

OS 
MORCEGOS


Este é o velhinho, gasto pelo tempo e uso intenso, emblema usado na manga dos homens do Esq. Cav. 149 depois da campanha de Nambuangongo.
Quando em 01/Ago/61, após o acampamento na Fazenda Matombe, o Comando decidiu tomar a iniciativa arriscada e inovadora de avançar em progressão contínua noite e dia sem acampar, tal decisão deu origem a que entre os Soldados se começasse a falar de sermos como os morcegos. E como se passou a progredir mais de noite que de dia a ideia de que éramos como os morcegos alargou-se a todo o Esquadrão e ganhou consistencia como mais um motivo de orgulho e, sobretudo, tomado como mais um reforço para a força anímica e moral da Tropa. 
Desse modo, logo que terminada a campanha de Nambuangongo, Quipedro e Pedra Verde, chegados ao Caxito o próprio Comando, sempre atento aos pormenores de auto-estima dos Soldados, encomendou a uma bordadeira de Luanda a feitura dos emblemas do Esquadrão 149 tendo como símbolo o morcego em homenagem à iniciativa táctica invulgar que, sendo nosso emblema, foi também sempre a imagem do nosso modo de actuar durante toda a comissão de serviço em Angola.  

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Depois da estratégia estabelecida
de não dar descanso ao inimigo,
avançando noite e dia, sempre em partida,
tendo a viatura, a arma e o instinto como abrigo,
passámos noites e dias e noitadas
em cima e debaixo das viaturas.
E, tanto estavam as nossas Tropas habituadas
que, já melhor que os dias eram as noites escuras,
porque à noite as Tropas não eram atacadas,
tornando os Soldados mais audazes e afoites
sem tiros e desassossegos.
Os nossos melhores dias eram as noites,
à semelhança daqueles não-pássaros negros
chamados morcegos.
E sendo assim, justo se impunha 
que "Morcegos" fosse a nossa alcunha.

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Do livro "Esquadrão 149, a Guerra e os Dias" de José Neves. 

A BOINA DE GALA

BOINA DE MEMÓRIAS

 

Esta boina com orelhas pertencia à farda de caqui que era igualmente a farda de gala para as Tropas no Ultramar. Para nós, Esq. Cav. 149, que fizemos toda a comissão de serviço no Norte em Zona de Guerra, tal farda e boina nunca mais foi utilizada depois do embarque em Lisboa.
Os militares usaram-na para inscrever nela as localidades por onde passavam ou acampavam e onde ocorrera casos de ataques ou outros especiais com valor para memória futura.
É hoje uma recordação viva desse tempo e desses momentos de guerra tão duros e carregados de perigos, medos e incertezas tais que ainda hoje é um alívio e um conforto recordá-los.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

GRANDE ARRANCADA, NAMBUAMGONGO II

A PRIMEIRA VICTÓRIA

Em 2011, 50 anos após a tomada de Nambuangongo em 1961, o Cor. Rui Abrantes concedeu ao Fur. Mil. do Esq. 149 Adolfo Contreiras uma entrevista sobre a Operação Viriato relativa à reocupação daquela povoação considerada pelos rebeldes da UPA como a Capital do Estado Livre do Congo Angolano.
O Cor. Rui Abrantes recorda como o então Cap. Comandante do Esq. Cav.149 ainda em Lisboa, tendo ouvido falar da importância militar e política da tomada de Nambuangongo, pensou no assunto e desembarcou em Luanda com vontade e decidido a participar nessa missão difícil e arriscada.  
Enviado o Esq. para o Caxito onde receberia missão do Comando do Sector 3 sediado na Fazenda Tentativa, no mesmo dia de chegada recebeu ordem de montar uma emboscada nessa noite a uma suposta descida sobre o Comando do Sector 3, e em direcção a Luanda, de milhares de combatentes da UPA que na véspera haviam atacado em massa o Bat.114 na ponte de Anapasso sobre o Rio Lifune fazendo alguns mortos e feridos e infundindo respeito.
A demonstração de capacidade de prontidão do Esq. 149 e a temeridade de colocar-se na frente de milhares de tropas inimigas e esperar de mão firme uma noite inteira deitados de arma apontada numa clareira da mata prontos a enfrentar tal coluna humana inimiga, foi de uma coragem e bravura invulgar. De salientar que os Soldados do Esq.149 tinham desembarcado havia dias e naquela altura ainda não tinham disparado um tiro na guerra. O Cap. Abrantes, ele próprio, esteve à frente e ao Comando das Tropas emboscadas.
É certo que o inimigo não compareceu como indicavam as informações recolhidas pelo Estado Maior do Comando do Sector 3, mas também não se sabe se não foi devido, precisamente, à movimentação rápida e à noite das nossas Tropas decididas a enfrentá-los, que o inimigo temeroso evitou o confronto. De qualquer modo o pessoal do Comando do Sector 3 instalado na Tentativa ficou descansado e pode dedicar-se sossegado à sua tarefa operacional de planear as missões das tropas na ZIN, Zona de Intervenção Norte.
No dia seguinte o Cap. Abrantes recebe a tão esperada e desejada missão de desobstruir o Caminho até Zala e se possível atingir Nambuangongo.
O Comandante Cap. Rui Coelho Abrantes, professor de táctica na Academia Militar, tinha obtido a sua primeira victória na guerra. 



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Entrincheirados atrás dos capacetes de aço,
estendidos ao longo do cume da colina,
perscrutando a noite e o silêncio que retina
no corpo de alto a baixo,
o peito colado à terra, senti-a estremecer,
(ou seria o coração aos saltos a bater?)
do medo que faiscava no espaço
que ia da cabeça dos Soldados a Anapasso
onde se dera terrível combate frente-a-frente,
entre espingardas tiro-a-tiro
e canhangulos e catanas braço-a-braço,

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aguardávamos irrompesse uma mole de Gungunhamas
armados de FBP, canhangulos, paus e catanas.
Somente se ouvia o ruido do silêncio cavo
da floresta, ou o pisar de algum bicho bravo.
O pensamento, denso como bala, reflexivo como diamantes
alterava-se, imprevisível, como corsa perseguida
aos saltos, como quem luta pela vida e a morte enxota.
Assim tensos, à espera da nossa terrível e temida
Aljubarrota,
passaram anos em instantes.

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Excertos do poema "Baptismo" do livro "Esquadrão 149 -A Guerra e os Dias" de José Neves.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A GRANDE ARRANCADA, NAMBUANGONGO

OBJECTIVO E DETERMINAÇÃO

Ainda antes da arrancada para a tomada de Zala o Comandante Cap. Rui Abrantes deu esta entrevista ao repórter da RTP Neves da Costa, integrado na coluna militar chefiada pelo Esquadrão 149, na qual é patente a determinação e coragem imparável de atingir o objectivo; nem que fosse preciso prescindir das viaturas e avançar apeado.




sexta-feira, 5 de abril de 2013

A NÃO GUERRA DE PACHECO PEREIRA (*)

 
O QUE MOVIA QUEM FOI E QUEM RECUSOU A GUERRA COLONIAL?
-A guerra engendrou o mundo, reina sobre o mundo-, disse Heraclito no princípio do século V(a.C.), no sentido de que o mundo (cosmos) é o teatro de uma luta incessante entre elementos opostos, e esta luta gera uma mudança perpétua. Ontem, mais através da guerra violenta, hoje mais através da guerra de idéias, o conflito de perpectivas opostas sobre as melhores soluções é o grande princípio gerador de evolução e desenvolvimento intelectual e material. Também a causa má, a ditadura, que levou à guerra colonial, gerou uma consequência boa, a queda da ditadura e a instauração da liberdade democrática, condição sem a qual não seria possível as benfeitorias de que o país beneficiou. A ditadura levou-nos obrigados à guerra e a guerra gerou no seu interior as condições de acabar com a própria guerra acabando com a causa da guerra, o regime ditaturial existente.

Quer isto dizer que devido às contradições geradas pela guerra no seu seio, foi possível a criação de um espaço de liberdade para originar um movimento de opinião e discussão da guerra. Foram os contínuos mortos e feridos da guerra sem solução de parar que fez os militares repensarem a questão da guerra e tirar conclusões. Sem o sacrifício de milhares de Soldados a tomada de consciência dos comandos intermédios despolitizados nunca teria sido interiorizada nem a guerra questionada. Foi no interior das matas africanas, com sangue, que se inscreveu na consciência dos militares a necessidade de libertar o país da guerra. Jamais os refractários ou desertores por convicção política e anticolonialismo, a trabalhar nas "profissões menores" em fábricas ou restaurantes, a estudar ou a cantar nas ruas de Paris, seriam contributos decisivos para mudar o que quer que fosse cá dentro.

O conceito de liberdade absoluta comporta dois tipos de liberdade relativa: a da exterioridade determinada pela vivência em sociedade e consagrada na lei; a da interioridade determinada pela vontade no foro íntimo do indivíduo. Um exilado, por força do exílio, perde inapelávelmente a primeira liberdade pois fica automáticamente fora dos direitos de cidadania e possibilidade de acção e intervenção directa, quanto ao segunto aspecto da liberdade da vontade interior, dado que está fora do meio social onde pode agir, esta apenas lhe pode servir individualmente na forma de estoicismo para suportar as condições duras do exílio. 
Foi por isso que Sócrates preferiu a morte ao exílio e que mais tarde os gregos ao perderem definitivamente a condição de cidadãos livres em Queroneia, viraram-se para a única liberdade que lhes restava e dedicaram-se a inventar filosofias de vida de refúgio e resistência individual como o estoicismo e o epicurismo.

Pacheco Pereira pertenceu àquele pequeno grupo que podia auto-exilar-se para não fazer a guerra ao contrário de; "aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial". Mas agora, vistos do "lado oposto" à distância de quase 50 anos, tenta pôr em pé de igualdade de "patriotismo" os combatentes e os desertores e até descobre que "também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la". O artigo de PP (Público, 19 de Abril), tresanda a moralismo paternalista de quem tomando uma atitude de escape face ao perigo, quer desculpar-se fingindo sobranceiramente compreender e desculpar os outros que lutaram. Diz que não foi por medo, mas o certo é que nas ruas de Paris e outras cidades da Europa apenas havia o medo da perda de conforto pessoal e não o medo de vida ou morte; diz que foi por ideologia e anticolonialismo mas o certo, como depois se constatou, é que a guerra proporcionava mais liberdade de promover proficuamente o anticolonialismo que nouto local qualquer (registe-se que os pides infiltrados nas Unidades Militares não tinham a coragem de denunciar os companheiros que arriscavam a vida a seu lado); diz que foi por anti-salazarismo mas o certo é que foi na guerra do mato que se gerou o movimento consciente que levou ao derrube do salazarismo e não nas cidades-luz dos auto-exilados.

Certamente ingénuos politicamente, simples e rudes socialmente, ignorantes culturalmente, inocentes quanto a altos juizos sobre guerras justas ou injustas, foram enviados obrigados à força para as matas e picadas de África e cumpriram o seu dever do momento. Comeram dia e noite a ração de combate diária e o pó das matas e picadas africanas, meses seguidos sob o permanente risco de vida. Não precisam nada, mesmo nada, eu recuso-o totalmente, do comíseracionismo paternal atestado de "patriotismo" que PP quer atribuir aos combatentes de 1961 " tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de 'quinhentos' ". Passados estes 50 anos, visto sob a serenidade de julgar que tal afastamento proporciona, cada vez se torna mais evidente que a História apreciará mais e registará primeiramente quem lutou e não quem se auto-excluiu. 
Não é apenas porque a sua música era superior que o José Afonso foi sempre mais ouvido e importante que os outros cantores exilados, foi também e sobretudo porque lutou, enfrentou e sofreu cá dento junto dos seus.

Por fim, PP propõe que " uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo" porque, "bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude" a que ambos tomaram, quer os auto-exilados quer os combatentes. Só numa concepção da imaginação se pode dizer que foi a mesma atitude, porquanto PP ao ver as imagens dos soldados de 1961 na guerra de Mauser na mão, pode ver-me a mim que estava lá, mas nunca a ele que se recusou participar.
O mesmo fragmento de Heraclito citado na abertura deste texto, traduzido-interpretado por Simone Weil é mais completo e diz: -A guerra é mãe de todas as coisas, rainha de todas as coisas, e revela alguns como deuses, outros como homens, e torna uns livres e outros escravos-.



(ª) - Texto escrito e postado no Blog APCGORJEIOS em 04 de Maio de 2008.

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

LIVRO "HISTÓRIA DO E. CAV. 149"


 EDIÇÃO DE 1963

 EDIÇÃO 2011

Já nos informou o nosso camarada do Esq.149 José António Botas Cardona que foi pessoalmente fazer entrega em mão de um exemplar da 2ª edição do livro "História do Esquadrão 149" da autoria do nosso Ten. Miliciano Médico  Dr. João Alves Pimenta.
Dado o livro ter sido editado ainda em Luanda sobre a hora do nosso embarque em 1963 e em quantidade muito limitada, a quase totalidade dos livros foram distribuidos pelo pessoal do Esquadrão o que restringiu grandemente o conhecimento deste documento preciso e precioso para a verdade dos factos acerca das missões executadas pelo Esq. 149, nomeadamente na operação "Viriato", uma das mais importantes para o regime no aspecto politico-militar.
Estando há muito esgotada a 1ª edição quis o Dr. João Alves Pimenta promover uma nova edição tendo em vista uma divulgação mais alargada além de corrigir algumas gralhas existentes.
Como disse, o livro foi editado em Luanda em 1963 sobre a hora do embarque para Lisboa. E foi possível editar ainda em tempo de cumprimento de missão porque o Dr. Alves Pimenta o foi escrevendo em cima e à medida dos acontecimentos. No relato dos factos inscritos neste livro não há nada intermediado posteriormente pela memória. Até as suas clarividentes notas de observação acerca do moral e estado físico dos militares assim como medidas de tratamento psicológico por si tomadas para evitar o abatimento dos Soldados mais frágeis, foram pensadas e escritas sob o perigo das balas nos acampamentos isolados na mata e sob o calor da sua generosa humanidade.

Tem agora a Liga dos Combatentes em sua posse, um precioso e fiel documento de consulta para poder confirmar com fidelidade os factos relativos ao Esq. 149 e, avaliar e distinguir sem erro a ficção da realidade ou repudiar quem queira imaginar e escrever a História para, com os feitos alheios, aumentar o seu próprio espólio de heroismo.



sábado, 26 de janeiro de 2013

UMA "ESTÓRIA" MAL CONTADA


Cap. Rui Coelho Abrantes à frente do Esq. 149 formado em apresentar armas na parada do hastear da bandeira portuguesa em Zala.

CARTA ENVIADA À LIGA DOS COMBATENTES ACERCA DO TEXTO "CONQUISTA DE NAMBUANGONGO" UMA "ESTORIA" DA AUTORIA DO FURRIEL EDGAR SILVA PUBLICADA NA REVISTA DA LIGA DE DEZEMBRO DE 2012


Exmos. Senhores,
Caros Combatentes.

Um camarada meu do Esq. Cav. 149 chamou-me a atenção para a “Estória” contada e inscrita na Vossa Revista de Dezembro de 2012 com o heróico titulo de “Conquista de Nambuangongo”, da autoria de Edgar Silva.
É certo que o autor lhe chama “estória” pelo que nos informa à partida que vai contar uma ficção. Contudo o assunto histórico mesmo ficcionado tem de sustentar-se na realidade dos factos históricos e não em deturpações grosseiras desses factos. Não é, contudo, o que o autor faz  que mais parece escrever para se auto-elogiar permanentemente ao longo do texto e divertir-se com a guerra invocando-a para se exibir quase à maneira de António Lobo Antunes. 

O autor Furriel sem medo, começa logo no titulo por insinuar que esteve na “Conquista de Nambuangongo” mas, lendo o texto, constata-se que fez o percurso até Zala e esteve aqui acampado. Depois apenas informa que parte com a sua Unidade, penso que o Batalhão 158, para algures próximo de Carmona. Pelo menos não dos diz nada como, quando e com quem chegou a Nambuangongo, que distava ainda 44 Kms, nem refira quem lá estava quando lá chegou dado que, como é historicamente sabido, o Bat. 96 do Coronel Maçanita foi a primeira Unidade militar a entrar em Nambuangongo e lá permaneceu largos dias. O autor omite deliberadamente a sua chegada e como a Nambuangongo para evitar maior confronto com a realidade que sabe ser outra e contrária ao efeito que pretende tirar da sua “estória”.

É do conhecimento geral militar e histórico da guerra que na operação “Viriato”, relativa ao objectivo bem definido da tomada de Nambuangongo, tomaram parte 3 colunas militares por eixos diferentes: O Bat. 96, o Bat. 114 e o Esq. 149, este exactamente pelo eixo Ambriz-Zala-Nambuangongo. O Bat. 96 atingiu Nambuangongo às 17,00 horas de 9Ago61 e o Esq. 149 às 9,00 horas de 10Ago61. Mais nenhuma outra Unidade foi encarregada ou tomou directamente parte na tomada de Nambuangongo. O Comandante do Bat. 158, certamente, nunca podia ter informado os seus homens que a missão do seu Bat. era a tomada de Zala e Nambuangongo, como afirma Edgar Silva no seu texto. 
 
Mas o nosso Furriel conquistador sem medo, deturpa a realidade dos factos, também, quando afirma que a sua Unidade desobstruiu e tomou as povoações até Zala e conquistou esta povoação, importante sede de Posto Administrativo. Quem foi primeiro e travou todas as batalhas e tomou todas as povoações até Zala, incluindo esta e depois até Nambuangongo foi o Esq.149 que, esse sim, tinha a missão de desobstruir o caminho e retomar povoações até ao objectivo final, que era tomar e ocupar Nambuangongo.
 No terreno a missão do Bat.158 consistiu em ocupar as povoações tomadas pelo Esq.149 no seu percurso como Quimbumbe e depois Zala onde tropas do Bat. 158 ficaram instaladas para guarda dessas posições recuperadas e aí permaneceram depois do arranque do Esq. 149 para Nambuangongo pelas 18,00 horas do dia 8Ago61. Na véspera, dia 7Ago61 foi o Esq. 149 que formou em parada para hastear a bandeira portuguesa no Posto de Zala após a qual o  Comandante do Esq. 149, Cap. Rui Coelho Abrantes fez a entrega oficial da povoação à entidade administrativa competente, o Chefe de Posto de Zala.

Em Zala, na hora da partida para Nambuangongo, o Esq. 149 recebeu como reforço dois pelotões do Bat. 158 onde, eventualmente, estaria incluído Edgar Silva o que, nesse caso, dará um mínimo de verosimilhança à sua “estória”. Não é, contudo, sério, afirmar que a sua Unidade foi encarregada da missão de conquistar Nambuangongo e pelo caminho conquistou Zala e outras povoações, feito esse que apenas pertence ao Esq. 149. Igualmente, não é sério que, caso seja verdade que tenha chegado a Nambuangongo incluído como reforço e sob o comando do Esq.149, não só omita esse facto como insinue ser seu conquistador, feito que nem sequer coube ao Esq. 149 mas sim, como é conhecido, ao Bat. 96. Como reforço e Adidos ao Esq. 149 haviam Pelotões de Morteiros 81, de Artilharia com peças 88, de Sapadores da Compª. Engª. 123 e dos Dragões de Luanda equipados com blindados Panhard e nenhum seu elemento ousou ainda reivindicar para si, ou sua Unidade de origem, a conquista de Zala ou Nambuangongo. Publicar um texto com o título “Conquista de Nambuangongo” e depois falar apenas de si próprio atribuindo-se conquistas e feitos alheios, é de uma vaidade insuportável. 

Deixa-nos espantados que a Liga, que pretende ser um repositório fiel dos acontecimentos dos Exércitos portugueses nas várias guerras e especialmente na controversa Guerra Colonial, não tenha alguém conhecedor e competente para supervisionar os textos publicados nos seus documentos que a representam oficialmente.
Acho eu que, a Liga deve confirmar a veracidade dos acontecimentos relatados e impressos em documentos que só a si responsabilizam. Caso contrário, a História da Guerra feita pelos futuros historiadores com base em documentos sem rigor, acabará por ser uma História de dúvidas e logro: com relatos deturpados e falsos dos factos haverá amanhã Histórias da Guerra para todos os gostos e feitios. Como a “estória” pouco séria por vós publicada e aqui criticada, são hoje mato nos nossos media, onde cada um conta a sua “estória” da maneira mais conveniente e fácil para conseguir um auto-elogio sem a hombridade de respeitar a verdade dos factos.

E não seria difícil repor os factos da guerra tal como aconteceram dado que a maior parte dos participantes nela ainda são vivos e podem relatá-los de viva voz. Espanta-me que os Comandantes das operações de envergadura ou outras significativas, jamais tenham sido convidadas a depor. Ao contrário são sempre os jornalistas ou “estudiosos” que vão debater a Guerra sob uma perspectiva e interpretação literária ou psicológica que não tem nada a ver com os factos reais vividos pelos próprios. O Artur Agostinho, provavelmente ainda tremendo de medo, até comentou a Guerra e sobretudo a Batalha de Nambuangongo sob a perspectiva futebolística: avistou-a do alto dum avião e, claro, não ouviu tiros nem viu mortos e feridos e, claro também, viu nela o que era seu hábito e especialidade, um jogo de futebol envolvido de clubite. 

Por outro lado, penso, que a Liga tem relatos e documentos escritos e de imagem, fieis e credíveis, suficientes para poder fazer a análise histórica correcta sobre as “estórias” que alguém queira contar e mais não são que ficções auto-apologéticas. 

 Para constatação da verdade dos factos que acima referimos, pode a Liga consultar os seguintes documentos:
- Filme “A Grande Arrancada” da autoria dos repórteres da RTP Neves de Sousa e Serras Fernandes que acompanharam, filmaram e viveram com o Esq. 149 até Nambuangongo.
- O livro “História do Esquadrão de Cavalaria 149” da autoria do nosso Tenente Médico Dr. João Alves Pimenta, escrito durante a campanha e impresso ainda em Luanda em 1963.
- O livro “Esquadrão 149 – A Guerra e os Dias” da autoria de José Neves, Furriel do Esq. que relata os factos tal como os viveu e não por ouvir dizer.


Os nossos respeitosos cumprimentos,

Adolfo Contreiras

Furriel do Esq. 149
Gorjões, 24.01.2013



PS – Informamos que iremos publicar esta carta no blogue “Memória 149” que pretende relatar o percurso, missões e feitos do Esq. 149 em Angola entre 1961 – 1963 e que, precisamente, nesta altura está relatando a tomada de Zala.     
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

TOMADA DE ZALA

A 6Ago61 fez-se a última arrancada para ocupação de Zala localidade com Posto Administrativo que foi atingida pelas 16 Horas.
O inimigo que se havia batido duramente até Quimazangue e nos fizera um morto e vários feridos, neste pequeno troço final quase não ofereceu resistencia e tinha abandonado a povoação com forte rasto de destruição do casario, como já se tornara habitual no inimigo.







A 7Ago61 o Esquadrão marchou em formatura geral até junto do Posto Administrativo para proceder ao hastear da bandeira portuguesa na presença do Chefe de Posto e de vários civis fazendeiros da região que nos acompanharam e nos serviram de guias pelo meandros e cruzamentos de picadas. 
Nesta cerimónia do hastear da bandeira o Comandante Abrantes, uma vez reconquistada a povoação, fez a entrega do Posto à entidade administrativa competente. 



Foi interessante verificar que, embora já destreinados e desligados dos exercícios de paradas e galas vistosas em aquartelamentos monumentais, os nossos Soldados marcharam garbosa e briosamente embora metidos nas suas fardas de combate já bastante suadas e gastas. 
Nesta parada não havia obrigação de fazer brilhar os amarelos nem a graxa das botas ou outra qualquer exigência para abrilhantar a cerimónia. Nem era necessária e o Comando preocupava-se muito pouco com simbolismos de parada e muito mais com simbolismos de coragem. 
O brilho militar forte estava na consciência do dever cumprido e reflectia-se nos olhos dos Soldados.
Foi uma parada num intervalo da guerra onde estavam presentes o sangue dos camaradas feridos e do morto recentes e o acto comemorava uma victória que significava o cabal cumprimento do dever perante o sangue já derramado sobre a picada até Zala.




Ainda na tarde de 7Ago61 continuaram as obras de improvisação de uma pista de aviação a partir de uma encosta de capinzal.
Com ferros, latas, catanas e algumas pás e enxadas existentes, todos se empenharam em capinar e alisar uma encosta de capim. Com esforço fez-se uma pista cheia de altos e buracos que na aterragem inaugural o Dornier mais parecia uma corça aos saltos e, não fora a perícia do piloto, certamente tinha-se virado às cambalhotas.
A alegria dos Soldados, ao verem o avião, um Dornier DO-27, finalmente parado e direito sobre as rodas, correram em bando felizes para o avião que trazia correio e víveres frescos.


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Ainda andava no ar o fumo e o intenso cheiro
da pólvora, após várias horas de tiroteio intenso
quando avistámos casas e num enorme e alto terreiro
acampámos para descanso do corpo,da alma e do imenso
medo e desgaste psíquico, provocado
durante tantas horas de fogo cruzado
que provocaram à nossa Tropa cinco feridos ligeiros
e várias baixas ao inimigo, a julgar pelos rastos vistos nos carreiros.
Contudo, na hora do dever cumprido e do descanso, ninguém se rala
com os feridos que estavam bem entregues ao Doutor e maqueiros
e, os restantes estavam felizes pela tomada de Zala.


Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves

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